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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Entrevistamos: Cintia Alves da Silva



Doutoranda e mestra em Linguística e Língua Portuguesa pela Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), campus de Araraquara (SP), Cíntia Alves da Silva é autora de uma importante dissertação que une ciência e religião: As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica.

Seu objeto de estudo – as cartas psicografadas pelo médium mineiro – envolve uma análise criteriosa do processo de construção dos autores espirituais, com base na coerência dos fatos relatados. Atualmente, dedica-se à tese de doutorado intitulada A prática da psicografia: enunciação e memória em relatos de experiência mediúnica, um estudo mais amplo da psicografia como prática semiótica.

Agradecemos pela entrevista, cedida prontamente e pela amizade que se iniciou com a publicação de um outro post sobre sua obra, post que foi utilizado em seu trabalho, junto com outras matérias em que o estudo foi citado.Desejamos sucesso nas novas empreitadas e na divulgação!

Entrevista com Cintia Alves da Silva

Como se deu a escolha do tema para sua dissertação de mestrado, Cintia?

   Escolhi o tema da minha dissertação de mestrado a partir de uma série de eventos que despertaram o meu interesse para a escrita psicográfica de Chico Xavier. Citarei dois dos que considero mais decisivos. 
   
Em outubro de 2008, tive a oportunidade de assistir um documentário sobre a vida do médium mineiro, intitulado Chico Xavier Inédito: de Pedro Leopoldo a Uberaba, que continha o depoimento da Dra. Marlene Nobre sobre uma pesquisa estatística realizada pela equipe da AME-SP, sob coordenação de seu irmão, Paulo Rossi Severino, a respeito do grau de precisão das informações presentes em cartas psicografadas pelo médium entre as décadas de 1970 e 1980. Nesse documentário, Dra. Marlene mostrava os resultados do estudo – posteriormente transformado no livro A vida triunfa, nos anos 1990 –, que comparava dados presentes nas comunicações psicografadas com aqueles citados em questionários preenchidos pelas famílias dos mortos, e punha o material à disposição de quem quisesse investigar o assunto. 


   A questão já havia me chamado a atenção meses antes, em maio, quando tomei contato com uma notícia da Folha de São Paulo, acerca da recém-criada Associação Jurídico-Espírita de SP – AJE-SP, a qual propunha uma “espiritualização” do judiciário e defendia, entre outras práticas, o uso de cartas psicografadas nos tribunais. A reportagem comentava, ainda, a existência de quatro casos em que cartas psicografadas foram utilizadas como meios de prova nos tribunais, mas não citava que se tratavam das cartas do médium Chico Xavier e que os casos eram únicos no mundo. O meu espanto com essa informação foi tamanho que cheguei a guardar o recorte de jornal com a notícia. Desde então, comecei a buscar e organizar informações sobre os casos que envolviam a escrita mediúnica de Chico Xavier. Mas não voltei a pensar seriamente sobre o assunto senão no final desse mesmo ano, depois de ter recebido o que considero um “convite” incomum – já que foi feito trinta anos antes! –, através do depoimento da Dra. Marlene. Pesquisar sobre as cartas de Chico Xavier se tornou, assim, um hobby para mim. Queria saber como a ciência poderia explicar aquele fenômeno. Tantas perguntas – de natureza linguística, especialmente – surgiam diante daquele material, reunido em cerca de uma centena de livros, que não foi preciso muito tempo para que tomassem a forma de um projeto acadêmico. Bastaram dois meses para que eu elaborasse a sua primeira versão, que foi aperfeiçoada ao longo de 2009, quando submeti o projeto ao Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da Unesp de Araraquara. Desse modo, oficialmente, a minha pesquisa teve início em 2010, tendo sido concluída em 2012, sob orientação do Prof. Dr. Jean Cristtus Portela.

Qual foi o objetivo da dissertação?
A pesquisa intitula-se As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica e seu principal objetivo foi o de compreender o processo de construção das autorias espirituais – ou “imagens” de enunciador – nas cartas “familiares” ou “consoladoras” escritas pelo médium. Os objetivos específicos consistiam em constatar se havia coerência na construção das autorias espirituais na obra psicográfica epistolar de Chico Xavier, ao longo de períodos de tempo maiores ou menores, e em que medida elas apresentariam marcas de autonomia ou individualidade que nos permitissem distingui-las umas das outras. 
De modo geral, ao lançarmos o olhar sobre o conjunto das cartas psicografadas por Chico, é comum pensar que todas são muito parecidas entre si. Pretendi, com esse estudo, compreender de que modo os autores espirituais se diferenciavam uns dos outros, isto é, quais eram os traços que poderiam funcionar como uma “digital” autoral para cada um deles. Vale ressaltar que esse foi o primeiro estudo acadêmico sobre as cartas de Chico Xavier.

Em depoimento você diz que gosta da psicografia, que se tornou objetos de seu interesse. Além das psicografias de Chico, chegou a ter contato com as de outros psicógrafos? Quais?
Não cheguei a estudar a psicografia de outros médiuns, mas, como leitora, conheço a produção psicográfica dos principais psicógrafos brasileiros, os que, pelos muitos anos dedicados à mediunidade e à escrita de obras da literatura espírita, consolidaram-se como referências para os adeptos e mesmo para os simpatizantes do espiritismo. Penso que as produções psicográficas de médiuns como Zilda Gama, Yvonne do Amaral Pereira e Divaldo Pereira Franco (que se inserem predominantemente em outros gêneros textuais, como o romance e os textos doutrinários) são impressionantes e, sem dúvida, merecem ser estudadas em profundidade.

Como foi a experiência de escrever um livro pela Unesp no qual aborda as psicografias de Chico Xavier?
Ter a dissertação transformada em livro foi, para mim, uma grande surpresa, pois não tinha a pretensão de publicar o estudo em outro formato. Queria que o texto chegasse ao máximo de pessoas, de forma gratuita, de modo que todos os que tivessem interesse na temática das cartas psicografadas pudessem ter livre acesso ao estudo, sem serem privados da leitura por questões econômicas – o dificilmente aconteceria se houvesse a publicação do texto por uma editora não acadêmica, já que normalmente o texto integral seria indisponibilizado no banco de teses da universidade e ficaria restrito à publicação impressa. Assim, a proposta da Cultura Acadêmica, selo da Editora Unesp que integra a Coleção PROPG Digital, surgiu como uma alternativa perfeita, que não restringia a circulação do texto, mas a ampliava, por disponibilizar as obras em formato digital, de e-book, e em formato impresso, pelo sistema de impressão sob demanda. Desse modo, quem quisesse ler gratuitamente poderia baixar o e-book e quem desejasse adquirir o livro poderia encomendar a edição impressa pelo site da editora  http://www.culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=299 . 

É, ao meu ver, o sistema ideal para a publicação de pesquisas. A publicação pela Cultura Acadêmica foi feita com a indicação da dissertação através de um edital, em que o Conselho do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa selecionava as pesquisas mais representativas da produção acadêmica daquele ano. Foi com muita alegria que tive o meu trabalho selecionado para a publicação, entre os dois que foram contemplados com o prêmio de reconhecimento por sua relevância no ano de 2012.

Qual a sua religião? Tem conhecimento do espiritismo, como Kardec e outros autores? Destacaria algum em especial?
Sou espírita desde a minha adolescência. Além da codificação kardequiana, destacaria a importância da obra psicográfica de Francisco Cândido Xavier, pela diversidade e profundidade que o fazem, certamente, o principal continuador da obra de Kardec.

Pelo contato que teve com as cartas chamadas consoladoras, qual ou quais chamou mais sua atenção e por que?

As cartas familiares ou consoladoras chamaram a minha atenção, de modo geral, por serem textos atribuídos a pessoas comuns, gente como a gente. Diferentemente de Parnaso de Além-túmulo e outras obras de Chico Xavier, “assinadas” por grandes poetas e literatos, as cartas familiares eram atribuídas a mães, pais, cônjuges e filhos, das mais diferentes faixas etárias e perfis sociais. De crianças a velhos, do homem anônimo ao notório, a variedade lexical e discursiva presente nas cartas de Chico Xavier é inegável. E, apesar de tantas variações, era impossível não notar algo comum entre todas as cartas, um traço que fazia com que todas parecessem, ao mesmo tempo, tão iguais. Três autores espirituais chamaram a minha atenção de modo especial, por apresentarem, entre si, uma significativa similaridade de estilos e vocabulário, além da faixa etária e perfil social semelhantes: Augusto César Netto, Jair Presente e Laurinho Basile. Foram justamente esses autores espirituais que selecionei para o meu estudo, de modo a compreender as suas formas de constituição como identidades manifestadas na obra epistolar psicográfica do médium Chico Xavier. A análise das cartas desses autores semelhantes nos permitiu identificar uma imagem de enunciador (éthos) dual / ambígua: o éthos doutrinário (vinculado à imagem do médium) em articulação com o éthos do jovem (vinculado à imagem do autor espiritual), cujo efeito de sentido é o de que duas identidades se revezam na tarefa de comunicar, em oscilações discursivas e textuais que se dão ora por alternância, ora por sobreposição de imagens enunciativas. Ao final, foi possível concluir que a projeção dessa dupla imagem nos textos somente se torna plausível dentro do sistema de crenças e valores da doutrina espírita e de sua prática geradora: a psicografia epistolar.


Além do livro publicado, qual outro convite recebeu, como foi a repercussão conquistada com a dissertação?
Para uma pesquisa em semiótica, a repercussão da dissertação foi bastante significativa. Ao todo, foram cerca de vinte matérias e entrevistas, no Brasil e no exterior, em sites e revistas, tanto espíritas como não espíritas. Isso me alegrou e surpreendeu, é claro, principalmente pela oportunidade de colocar um tema tão controverso em pauta. Depois da pesquisa, recebi alguns convites para ministrar palestras e participar de mesas-redondas em congressos especializados. O próximo evento em que participarei como convidada será no 1º ERLIHPE – Encontro Regional da Liga de Pesquisadores do Espiritismo, que acontecerá na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba (MG), em 17/05/2014. Será uma mesa-redonda sobre Literatura mediúnica, organizada pelo prof. Ozíris Borges Filho, e na qual estará também o prof. Alexandre Caroli Rocha.

Cintia, com uma dissertação de mestrado aprovada e uma tese de doutorado em andamento, envolvendo o estudo da prática da psicografia  que, por  si só, é um tema polêmico por lidar diretamente com a concepção existencial do ser humano e contrariar interesses, perguntamos: você sofreu algum tipo de preconceito ou resistência no meio acadêmico, quando tornou público o tema da sua tese ?
Jamais sofri qualquer resistência no meio acadêmico pela temática que escolhi estudar, nem na universidade onde desenvolvo as minhas pesquisas, a Unesp de Araraquara, nem em outras instituições de ensino superior, nos diversos congressos em que as apresentei. Pelo contrário: percebi, desde o início, muita receptividade e interesse das pessoas pelo tema. A psicografia já é reconhecida como uma prática religiosa de grande impacto no contexto brasileiro, por suas evidentes implicações culturais e editoriais. Os meus estudos sobre a psicografia são exclusivamente voltados à compreensão dos seus mecanismos linguísticos e discursivos, à organização da prática psicográfica e aos enunciados que ela gera, aos sentidos produzidos dentro dela, enfim. Nunca pretendi estudar a religião e se a tomo como referencial, por vezes, faço-o unicamente com a finalidade de melhor descrever o horizonte discursivo sobre o qual se desdobra o discurso espírita. Acho importante que o pesquisador tenha clareza sobre o seu objeto, em suas potencialidades e limitações. Creio que boa parte das reações positivas que recebi da academia ao meu trabalho se deva ao tratamento dado ao meu objeto de estudo.


Sabemos que o Materialismo Científico e Filosófico possuem uma influência significativa no meio acadêmico. Acredita que a aprovação de trabalhos acadêmicos como o seu reflete uma evolução nesse sentido?

Creio que a aprovação e o reconhecimento da qualidade de trabalhos acadêmicos de temática espírita possam ser interpretados não como uma “evolução” do paradigma materialista, mas, sim, de uma mudança de mentalidade, que vem ocorrendo de uma forma mais ampla, mais global, no meio acadêmico, para acolher como objetos de estudo aqueles fenômenos antes desprezados pela ciência tradicional: os fenômenos subjetivos. Como analisar fenômenos subjetivos unicamente por meio de referenciais objetivos? É preciso desenvolver métodos que deem conta de descrever e analisar esses fenômenos – métodos que levem em consideração essa subjetividade. Não basta dizer que não são mensuráveis e reproduzíveis em laboratório e, por isso, devam ser prontamente descartados ou mesmo negados. Isso não resolve o problema. É por essa razão que se faz necessário a busca por novos paradigmas para o estudo de fenômenos como a psicografia, a mediunidade, entre outros. É preciso que haja o desenvolvimento de novos métodos descritivos e analíticos, simplesmente porque os objetos – mesmo que sempre tenham acompanhado o ser humano – precisam começar a existir para a ciência. O que precisa ocorrer não é a destruição do paradigma materialista, mas, sim, a construção de um novo paradigma, que possa dar conta desses “novos” objetos. Essa é uma busca recente, mas que já vem ocorrendo no meio acadêmico, especialmente ao longo das duas últimas décadas, o que pode ser observado pelo número crescente de pesquisas de temática espírita.


Como vê, de acordo com a linguística e a semiótica, os fenômenos de Xenoglossia psicográfica ou psicofônica, onde médiuns falam e escrevem em línguas desconhecidas por eles? Como analisar uma pessoa que expressa conhecimentos que efetivamente não os adquiriu, em pelo menos 3 aspectos: o não conhecimento da linguagem por ele expressa, o não conhecimento do conteúdo da mensagem e as propriedades psicológicas completamente diferentes do médium expressas na comunicação ?

A linguística e a semiótica não oferecem explicações para esses fenômenos, especialmente porque a compreensão das formas de obtenção de informações (seja por vias normais ou anômalas) por parte de um médium não faz parte das preocupações dessas duas ciências. O que interessa saber à linguística é se o idioma em que se expressou o médium – e que ele jura desconhecer – existe e, se existe, como ele funciona, bem como a forma como ele está ali representado. A menos que se tratasse de um estudo de linguística aplicada ao ensino de línguas, não haveria relevância alguma em saber sobre as formas pelo qual o médium aprendeu ou fez uso de um idioma desconhecido. Em relação à semiótica, interessa compreender como os efeitos de sentido de verdade, realidade e autenticidade da mensagem (seja ela oral ou escrita) foram produzidos, isto é, de quais estratégias textuais/discursivas o médium lança mão para persuadir a sua audiência – especialmente se ele afirma desconhecer o idioma em que se expressa –, entre outros aspectos. Enfim, tanto a linguística quanto a semiótica oferecem instrumentos conceituais bastante ricos e eficientes para a descrição e análise, considerando o objeto privilegiado de cada uma – a saber, a língua é o objeto privilegiado da linguística, enquanto o sentido é o da semiótica. Diante das nossas perguntas, devemos nos lembrar quais são os objetos e os propósitos de cada disciplina. É precisamente a natureza das perguntas que nos orienta na escolha do referencial teórico que embasará nossas reflexões.
  
 Considerou ou considera submeter seus trabalhos a Society for Psychical Research(SPR) de Londres e/ou a American Society for Psychical Research(ASPR) ?


Tanto a Society for Psychical Research quanto a American Society for Psychical Research são associações renomadas e dedicadas há longo tempo aos estudos psíquicos e paranormais. Certamente, se houver oportunidade, pretendo submeter algum artigo que esteja dentro do escopo de interesses das associações, e me sentiria muito honrada se qualquer uma delas acolhesse a minha proposta.